21 julho, 2008

O aracajuano que superou Os Sertões

Encontro Sergipano de História resgata legado de José Calasans

Poucas pessoas conseguem receber o mesmo reconhecimento em Sergipe e na Bahia ao mesmo tempo. Apesar da emancipação política relativamente recente, as distâncias culturais (como a disputa entre a Terra do Axé e o País do Forró) conseguem ser bem maiores do que a extensão da Linha Verde. O que dizer de um pensador que, além de ser freqüentemente homenageado nos dois estados, foi mais incisivo na história de Canudos do que o consagrado Euclides da Cunha?

José Calasans Brandão da Silva, sergipano de Aracaju, conseguiu este feito. E foi exatamente sobre este intelectual que tratou o XII Encontro Sergipano de História (ENSEH), realizado na Universidade Federal de Sergipe (UFS) entre os dias 7 e 11 de julho de 2008. Durante toda a semana do feriado pela Emancipação Política de Sergipe, os participantes tiveram contato com as diversas facetas do mestre.

A data do evento foi escolhida de forma estratégica. José Calasans nasceu em 14 de julho de 1915, quase um século depois da emancipação política de Sergipe frente à Bahia, em 8 de julho de 1820. A vida desse intelectual parecia intimamente ligada a Historiografia, aos dois estados e a essa separação, já que em 28 de Maio de 2001, às vésperas do festivo 8 de julho, faleceu na capital baiana.

Viveu em Aracaju até a década de 50, participando ativamente de movimentos culturais e intelectuais do estado. Foi professor da Escola Normal e aluno e professor do Colégio Atheneu Sergipense, numa época em que esta instituição pública era o berço de intelectuais e políticos futuros. Na outra metade de século, foi professor emérito da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e vice-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) na gestão de Macedo Costa, também sergipano, além de ter presidido a Academia de Letras da Bahia, em Salvador.

O evento

Pode-se dizer que os organizadores saíram satisfeitos do ENSEH, muito por parte da intensa participação dos estudantes. Ao todo, 400 inscritos participaram do evento e tiveram a oportunidade de conhecer e ter acesso às inúmeras realizações de Calasans em conferências, mesas redondas e mini-cursos.

O professor Luís Eduardo Pina Lima, membro da comissão organizadora do evento e integrante do Departamento de História da UFS, afirma que a participação maciça pode ser creditada a vários fatores, como a divulgação do evento e dos muitos cursos de História hoje presentes em diversas instituições de ensino superior. Outro atrativo oferecido aos participantes foram os créditos contados como atividades extra-classe obrigatórias no currículo do curso.

Eduardo Pina avalia positivamente a experiência do Encontro. “Existem muitos professores do nosso departamento que não conheciam José Calasans, por serem de fora do estado, e que fizeram bom proveito do evento ao conhecerem os estudos sobre folclore, Canudos, toda a obra, além da singular figura que foi José Calasans”, afirma o professor. Houve ainda a presença de vários ex-alunos e amigos de Calasans, que prestaram-lhe uma homenagem devida, uma das razões essências da realização do Encontro.

Canudos

Apesar de formado em Direito na Bahia, Calasans logo seguiu sua predileção pela história e pelo folclore, tornando-se Livre Docente em História do Brasil pela Faculdade de Filosofia da Universidade da Bahia. E se no âmbito local dos vizinhos nordestinos, José Calasans já tinha adquirido um patamar de elite na sua intelectualidade, foi ao se debruçar sobre a história de Canudos e de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, que ele tornou-se único nacionalmente.

Em um artigo escrito para o Jornal da Poesia, o professor Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, membro da Academia Cearense de Letras e docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), faz um breve esboço sobre a obra e a vida de Calasans. “Bem antes de se tornar um procedimento sistemático da historiografia moderna, ele superou a versão oficial e tradicional sobre Canudos, não só vasculhando ampla documentação nos arquivos da Bahia, Sergipe, Pernambuco e Ceará, mas sobretudo reconstituindo a sua história oral, colhida de remanescentes e combatentes do Arraial do Belo Monte”, afirma.

E foi esta a razão que fez o professor Diatahy chegar a uma conclusão irônica, ao conversar com o próprio José Calasans, um dos seus grandes amigos. “Na confraria dos estudiosos de Canudos: da Bahia para o Sul, eles são euclidianos; da Bahia para o Norte, somos conselheiristas. E ele sempre sublinhava que Euclides da Cunha, em sua obra-prima, trancara Canudos numa gaiola de ouro”, relata. O respeito aos depoimentos prestados pelos próprios sobreviventes e combatentes do conflito, que superava as estatísticas de guerra oficiais, tornaria, para o pesquisador, a história dos seguidores de Antônio Conselheiro mais humana, como deveria ser.

Acervo

Com toda essa pesquisa, que lhe garantiu a memória de investigador infatigável, Calasans produziu uma larga bibliografia sobre a Guerra de Canudos, tema ao qual se dedicou por quase toda vida. Tratou de assuntos também ligados a história de sua terra natal, nunca esquecida depois de sua nova morada soteropolitana, fato corroborado pelo conterrâneo e também historiador Luiz Antonio Barreto.

Todo seu acervo referente à História de Canudos foi doada pelo próprio José Calasans em 31 de agosto de 1983 à Universidade Federal da Bahia (UFBA), o que deu origem à biblioteca Núcleo Sertão. Por sua vez, as obras referentes à história de Sergipe estão disponíveis no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e no escritório de Pesquisas de Sergipe (PESQUISE).

Leia mais sobre José Calasans:

Artigo de Luiz Antonio Barreto (com a bibliografia de José Calasans)

Por Luiz Paulo

Fotos: Jornal da Poesia (foto 1) e Luiz Antônio Barreto (foto 2)

Um comentário:

Luiz Paulo disse...

Editores, bom trabalho de novo. Parabéns!