05 julho, 2008

O universo de Arthur Bispo do Rosário

Está em cartaz a Exposição 'Universo Paralelo', que traz fotografias das principais obras do artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Inaugurada no Espaço Cultural do TRT da 20ª Região no dia 26 de junho, a mostra, que conta com 28 fotografias das obras do artista, ficará exposta aos visitantes até o dia 31 desse mês.

A idéia de fazer uma exposição com as obras de Arthur Bispo do Rosário deve-se ao fato de o Estado de Sergipe estar sendo palco de um filme que contará a vida do artista, que completaria 100 anos em 2009. As obras originais do artista se encontram no museu Arthur Bispo do Rosário, localizado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, lugar onde ele foi internado durante 50 anos e produziu aproximadamente 800 peças.

Como suas obras originais são tombadas pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro – o que torna difícil sua retirada para outras exposições – e suas réplicas estão sendo usadas no set de filmagens, optou-se por fazer uma exposição fotográfica das obras do artista. As fotografias expostas foram fornecidas pelo museu do Rio de Janeiro e fazem parte do seu arquivo. Por não serem fotografias tiradas especificamente para uma exposição artística, mas sim para a catalogação das obras, pode-se perceber uma neutralidade no fundo delas e um destaque maior para a própria obra.

O curador da mostra, Genilson Brito, diz que a idéia do nome da exposição está relacionada ao quadro clínico do artista. Diagnosticado como esquizofrênico-paranóico, ele teve seu primeiro surto em 1938, às vésperas do Natal, começando aí sua vida artística. Arthur Bispo do Rosário saiu de Japaratuba, em Sergipe, aos 15 anos de idade e entrou na marinha, onde chegou ao posto de sinaleiro de embarcação. Depois, foi trabalhar na companhia fluminense de fornecimento de energia ('Light'), onde sofreu um acidente de trabalho. Devido a esse acidente, conheceu um advogado da família Leoni – muito conhecida no Rio de Janeiro –, passando a trabalhar como seu caseiro.

Foi durante um trabalho para essa família que, numa noite, teve sua primeira crise: a visão de 7 anjos descendo do céu, entregando a ele a missão de reproduzir tudo que tinha no mundo em miniaturas para que elas fossem entregues ao criador, Deus, no dia do juízo final. Assim, a partir dessa primeira crise, ele passa a ter momentos de lucidez e momentos em que vive num mundo à parte, nesse "Universo Paralelo", onde acredita ser o escolhido, o filho de Deus, se identificando até como Arthur Jesus, o filho do homem. Numa visita à exposição, é possível perceber que suas obras possuem caráter memorialista, fazendo referência às experiências que teve ao longo de sua vida.


A primeira parte da exposição, por exemplo, é mais lúdica. Vemos representações de carrosséis, de burros, de carrinhos. A segunda parte, por sua vez, faz referência ao tempo em que passou na marinha, por isso encontramos peças representando barcos, mastros com bandeiras, velas e estandartes. É na terceira parte, porém, que encontramos as obras mais complexas da obra de Arthur Bispo. São as assemblages e as vitrines, como são chamadas pelos críticos. São obras mais elaboradas, que misturam materiais e mostram o senso estético e organizacional que o artista possuía, apesar de seu problema psíquico.

Arthur Bispo do Rosário é considerado pelos críticos um artista contemporâneo ou pós-moderno, enquanto outros artistas portadores de transtornos mentais são tidos, pela crítica, como produtores de "Arte Bruta". Ele dialoga com a obra de outros artistas contemporâneos importantes mundialmente – a exemplo de Marcel Duchamp –, artistas cuja forma de arte foge da ordem convencional da época e, muitas vezes, chocam o público levando a discussões do que seria "arte".

Genilson Brito afirma ser fundamental que as pessoas, principalmente o público sergipano, conheçam esse artista reconhecido mundialmente. Nesse momento, em que há uma verdadeira mobilização na cidade em torno do filme e da divulgação da história do artista, a exposição se apresenta como uma oportunidade imperdível. "A mostra é muito importante para que o público sergipano descubra o Arthur Bispo, como o mundo e parte do Brasil já descobriram. Está faltando o estado de Sergipe e os sergipanos descobrirem o valor que ele tem para o mundo das artes, pois isso ainda não está tão consolidado assim", ressalta.

O curador da mostra informa que, após as filmagens, a intenção da equipe é que as obras replicadas com autorização do museu do Rio de Janeiro para a realização do filme sejam doadas para o Governo do Estado, e que haja a criação de um novo museu em Sergipe. O objetivo é que o público sergipano não perca a referência e o contato com a obra e a vida desse artista da terra tão importante no mundo das artes.

Um pouco mais sobre o artista

Arthur Bispo do Rosário nasceu em 1909 na cidade de Japaratuba, em Sergipe, e morreu no dia 5 de Julho de 1989, na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. O seu aparecimento para o Brasil se dá no início da década de 1980, quando o 'Fantástico' faz uma matéria para saber como vivem os internos da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Nesta época, estava sendo empregada a "arte-terapia" no tratamento de pessoas com transtornos mentais a partir de contribuições da psicologia e da psicanálise.

A matéria chama a atenção para o fato de haver um interno que vinha produzindo arte há 40 anos. Assim, após ser mostrado na reportagem, pessoas ligadas ao mundo da arte, cineastas e políticos, a exemplo de Hugo Denizarte e Fernando Gabeira – que chegam a fazer um documentário sobre a vida do artista – se interessam pelas suas obras e passam a visitá-lo.

Desta forma, críticos e curadores pedem permissão para que a obra de Bispo saia da Colônia e vá participar de mostras de artistas com transtornos mentais. Arthur, então, concorda que suas obras saiam para essa mostra. Pouco tempo depois, acontece uma exposição individual no MAM. Devido à expectativa que a reportagem do 'Fantástico' tinha trazido, mais de 800 pessoas se aglomeram na porta do museu antes mesmo de a exposição ser aberta, obrigando os administradores do museu a antecipar a sua abertura.

A partir daí, suas obras ganham uma repercussão mundial ao ponto de, em 1995, terem representado o Brasil em uma das Bienais mais importantes do mundo, em Veneza. O artista é apontado pelos críticos do Le Monde como o destaque da Bienal e sua ausência na lista dos premiados da mostra é criticada por toda imprensa européia. Assim, os museus de todo o mundo começam a se interessar por suas obras. Reverenciado por toda a crítica internacional, Bispo passa a ter suas obras expostas nos mais importantes museus de arte moderna do mundo, a exemplo dos de Nova York, de Paris e do Japão.


A peça 'Manto da Apresentação' simboliza o forte lado religioso de Arthur Bispo do Rosário. Segundo este, a obra é a representação do manto com o qual ele deveria ser enterrado. Na sua parte interna, encontram-se bordados nomes de pessoas a quem ele se refere como "os escolhidos", gente que passou por sua vida e que seria salva por ele e por Deus no dia do juízo final.

O filme 'O Senhor do Labirinto', que conta a história do artista, é dirigido pelo cineasta Geraldo Motta e baseia-se no livro "Arthur Bispo do Rosário – O Senhor do Labirinto", de Luciane Hidalgo. A previsão para o seu lançamento é no final de 2009, ano do centenário de vida do artista.

Saiba mais sobre a arte contemporânea:

Por Júlia da Escóssia
Imagens: Júlia da Escóssia

2 comentários:

Dijna disse...

muito legal a matéria Ju,é muito importante valorizar os artistas da terra que a gente vive, contando suas histórias. Ah! O filme "O senhor do labirinto" também contará com a participação de artistas sergipanos como César Leite. bjus

fotos artisticas dos alunos do leme disse...

O universo de Bispo é a verdadeira cópia do nosso verdadeiro mundo e quiçá do nosso verdadeiro universo!
A Arte não morreu, pois Bispo a reviveu e a reinventou dando motivação para que outros artistas, que nasceram desde há muito tempo até hoje, produzirem o que há de novo e discutível na arte até hoje.
Cada artigo como este só vem abrilhantar as discussões da Arte como forma de pensamento e fomentam os novos caminhos desta mesma Arte.
Carlos Alonso - São Paulo - Brasil