03 dezembro, 2007

"Não tenho como não ficar orgulhoso e satisfeito com essa polêmica"

O Filme “Tropa de Elite”, baseado na obra “Elite da Tropa” de Rodrigo Pimentel, alcançou uma repercussão que foi desde a ampla venda de cópias piratas ao sucesso nos cinemas, passando pela discussão a respeito do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Bope, e a sua atuação nas favelas. O longa metragem aborda com vigor uma realidade que faz parte do cotidiano da população carioca: a guerra em que vive o RJ contra a criminalidade intensificada pelo crescimento do tráfico de drogas. Rodrigo Pimentel, hoje consultor de segurança, entrou para a polícia com 18 anos. Atuou no Bope até 2000. Em 2005, quando o roteiro do filme já estava sendo produzido, Pimentel escreveu o livro “Elite da Tropa”, sucesso garantido pela projeção do filme. Dando continuidade ao projeto de “Tropa de Elite”, lança sua minissérie que começa a ser filmada em maio. Seguindo uma rota de viagens para debates, Pimentel esteve na última sexta-feira, dia 30, em Aracaju, no Colégio Graccho Cardoso às 19h, para uma discussão sobre o filme.

Contexto - Como você avalia a repercussão que o filme alcançou para a sua vida profissional?

Rodrigo Pimentel - Hoje, em 48 dias eu já participei de 80 debates. Esse é o maior legado do filme: a promoção do debate e da discussão. A partir desta promoção é que se pode ter alguma mudança no quadro caótico da segurança pública no país. O filme não foi indicado ao Oscar, mas teve a capacidade de gerar discussão. É uma realização profissional, a realização da minha vida. Milhões de brasileiros conheceram melhor uma instituição policial. No entanto, vale ressaltar que não é só uma polícia que faz a segurança pública. Outras instituições, outras organizações e até a sociedade estão envolvidas nesse processo. Mas, a partir desse conhecimento da sua polícia, se pode buscar uma mudança. Nesse sentido o filme é uma realização profissional para mim. Esperava que ele promovesse um debate, mas não esperava tamanha repercussão. Nós tiramos da pauta nacional o assunto corrupção política, que até então estava em vigor, e resgatamos o assunto segurança pública, que estava esquecido. Então, eu não tenho como não ficar orgulhoso e satisfeito com essa polêmica.

Contexto - Até que ponto você avalia que o filme seja um retrato da sociedade ou da segurança pública brasileira? Deixemos a licença poética de lado...

Rodrigo Pimentel - É importante preservar outras corporações policiais no Brasil. Aquela polícia, a que o filme se refere, é a polícia do Rio de Janeiro. Com certeza a polícia de Sergipe não é igual, como a polícia do Rio Grande do Sul também não. Aquela é uma realidade, talvez até mais amena, da polícia no Rio de Janeiro. É uma polícia que está tomada pela corrupção endêmica. Quanto à sociedade, acredito que boa parte da sociedade carioca tenha se visto no filme, através da sua omissão ou através do seu hedonismo quando busca as drogas. Eu tenho ido a debates onde alunos levantam o braço e dizem: “Eu parei de consumir maconha depois que vi o filme”. Ou seja, a gente atingiu alguém, provocou a reflexão de um jovem. Ele se viu retratado no filme. Mas, é verdade que o jovem consumidor não é o único responsável pela violência. Existem dezenas de razões para a violência urbana nas capitais. O jovem consumidor de drogas é apenas uma delas. Desigualdade social, desemprego, corrupção, miséria são outras razões que colaboram com esse cenário.

Contexto - Levando em consideração a sua experiência, o que você passou enquanto policial aspirante ao ingresso no Bope, aquilo ali também foi um retrato? É realmente necessário que cada policial se submeta àquelas situações?

Rodrigo Pimentel - O Bope é uma unidade atípica. Ela é uma exceção, não é regra. Unidades de Operações Especiais possuem suas místicas, seus símbolos, seus rituais de passagens. Então, se a polícia militar do Rio de Janeiro quer possuir uma unidade de intervenção, uma unidade de operações especiais para atuar daquela forma, tudo aquilo é necessário. A questão é: a polícia do Rio de Janeiro quer continuar tendo um Bope? A sociedade carioca quer continuar tendo um Bope? Se ela optar pelo sim, todo aquele sofrimento é necessário, faz parte da formação de um policial que trabalha na guerra, não na segurança pública. Eu diria que se o governo insistir nas operações em favela, o que eu não concordo, o Bope é necessário e o curso de formações especiais é necessário.

Contexto - Por que você não concorda com as operações em favela?

Rodrigo Pimentel - Elas são inúteis, não trazem resultados palpáveis, não reduzem a criminalidade, os homicídios, os roubos de carros. Elas não conseguem sequer inflacionar o preço das drogas. Elas não trazem nenhum resultado favorável à sociedade, ao morador de favela, nem mesmo à classe média e nem mesmo à polícia. No entanto, elas têm um efeito midiático e conseguem, com isso, o apoio da população, na ordem de 90%. Então, os governos insistem nessa fórmula. Como existe apoio popular, o governo adota essa estratégia há 20 anos. Isso não é novidade do governo Sérgio Cabral. Há 20 anos o estado combate o crime da mesma forma e a polícia executa. E está mais que provado que isso não dá certo. O enfrentamento nunca deu e não vai dar certo. Agora, cabe a gente, com matérias de jornais, com debates, com livros, filmes e documentários, esclarecer a sociedade que isso não funciona. Se a sociedade entendesse isso, ela iria se levantar contra essa situação e perceber que essas operações são um equívoco.

Contexto - Você acha que o filme também deixou isso retratado?

Rodrigo Pimentel - Não. Pelo contrário.

Contexto - Ele gerou um efeito reverso?

Rodrigo Pimentel - Evidentemente. Mas, eu não estava preocupado com isso. Eu estava preocupado em fazer uma obra de entretenimento, que as pessoas assistissem, se divertissem e refletissem também.

Contexto - Os debates posteriores foram propositais?

Rodrigo Pimentel - Não. Não foi proposital. O filme é um entretenimento só. Várias questões são abordadas no filme: a corrupção, a tortura, a miséria, a favela, o cinismo da classe média. Mas, eu não tinha como propósito denunciar ou condenar ações em favelas. O filme não tinha uma função social, confesso que não tinha. O filme tinha função de entretenimento. Mas, se você assistir uma trilogia, começando em “Notícias de uma Guerra particular”, passando por “Ônibus 174” e depois assistindo “Tropa de Elite”, você tem como notar que eles seguem uma linha de raciocínio. O “Capitão Nascimento” não queria aquilo. Ele queria sair na unidade e sequer concordava com as operações, as achava equivocadas e inúteis. Mas, a leitura final, confesso, é a leitura de que a guerra funciona, de que aquilo tudo é eficiente, de que aquilo é uma solução inteligente, apesar de o personagem principal estar em eterno conflito, querendo abandonar aquele cenário. Mas, a leitura final, até por conta do impacto das músicas e da violência, talvez tenha dado uma falsa idéia ao carioca e talvez ao brasileiro de que aquilo tudo funciona.

Por Viviane Marques

3 comentários:

valter disse...

Fico feliz em ver uma matéria tão boa no Contexto...Parabens a equipe!

Anônimo disse...

rodrigo mijão mijou na caveira o mundo ja sabe seu mijão.

Anônimo disse...

rodrigo cuidado com a fiscalização da prefeitura mijar na rua e crime seu mijão do bope.